MEMÓRIA

O TEATRO MUNICPAL E A ERA DOS FESTIVAIS DE TEATRO AMADOR DE SÃO CARLOS (1965-1976)

1/04/1969. Reinauguração do Teatro Municipal, rebatizado “Teatro Municipal ‘Dr. Alderico Viera Perdigão’” (em posição central na foto) “A Cidade”, 25.02.1964. Acervo UEIM-UFSCar/FPMSC.

Fernando Triques

 O ano de 2026 marca os 60 anos do Teatro Municipal de São Carlos e a “era de ouro” dos Festivais amadores.

O grande incentivo ao movimento teatral em São Carlos ocorreu com a criação da CET – “Comissão Estadual de Teatro”, em 1957, que se tornou responsável pela implementação do “Plano de Desenvolvimento do Teatro” na capital e pelo interior. Como reflexos da postura desenvolvimentista do governo JK, já entrando pelos anos 1960, aconteceram vários Festivais pelo país: teatro, música, cinema, dança. A efetivação do Plano iniciou-se em 1963 com a realização do “I Festival de Teatro Amador do Estado de São Paulo”. No seu primeiro segmento de atuação, até 76, o FETAESP teve 14 versões.  A época áurea do teatro amador!

A gestão de Nagib Elchmer abrangeu de 1963 até 67 e deu grande impulso à CET, estabelecendo incentivos aos polos amadores espalhados pelo Estado e parcerias com as prefeituras. Para se ter uma ideia da envergadura da Comissão, Cacilda Becker, Lélia Abramo, Renata Pallottini, Maria José de Carvalho, Tatiana Belinky, Sábato Magaldi, Décio de Almeida Prado, Carlos Pinto, entre outros nomes ligados ao teatro brasileiro fizeram parte ativa das atividades desenvolvidas. Para destacar a prestimosa atuação da CET, em 1965, sempre com a preocupação de difundir a arte teatral, tanto teórica quanto prática, a revista “Teatro da Juventude” foi criada e durante os 7 anos subsequentes foram 43 edições.

Desde 1963, Nagib Elchmer manteve contado com agentes culturais da cidade para a retomada da construção do Teatro Municipal, iniciada em 1957, quando do Centenário, na administração de Alderico Vieira Perdigão. Em entrevista a Laines Paolillo, o animador cultural se posiciona: “[…] Creio que visitei São Carlos, mais de vinte vezes. […] Agora essa descrença ficou para trás e, portanto, convoco elementos de projeção como os que aqui se encontram, representando todas as forças vivas da cidade, para que um movimento em prol da continuação das obras se inicie e propague.”

Tempos depois, com os inevitáveis ajustes orçamentários, já pelos idos de 1965, de tais e muitas discussões resultaram: a efetivação da FETAC – Federação de Teatro Amador do Centro do Estado de São Paulo, tendo Névio Dias com presidente; a consolidada retomada das obras do Teatro Municipal, na administração de Antônio Massei; e também as articulações para a realização do IV FETAESP – Festival Estadual de Teatro Amador do Estado de São Paulo.

As palavras de Névio Dias em suas “Memórias” recuperam esses tempos, destacando que o local foi transformado numa “‘fábrica de manilhas e tubos’, o que prejudicou sensivelmente sua estrutura” (DIAS, 2009, p. 107). Localizada na então conhecida e popular “Biquinha”, a construção foi reiniciada mesmo à revelia de alguns dirigentes e setores municipais que consideravam o local impróprio, questionando o custeio, além da utilidade de tal obra.

Névio Dias registra suas avaliações da época: “O Festival foi realizado com êxito e, embora o Municipal ainda em fase de construção não estivesse com as condições ideais, principalmente no tocante à parte técnica, conseguimos, com a colaboração dos grupos filiados, proporcionar ao público uma programação adequada a sua importância […].” Quanto ao público, destaca: “[…] O público compareceu, lotando diariamente as dependências.” E, evidencia os “ingressos a baixo custo” que “[…] fizeram com que parcela do público menos favorecido economicamente tivesse oportunidade de frequentar e apreciar espetáculos a que dificilmente teriam acesso”. (DIAS, 2009, p.133)

Aos poucos, com a conclusão das obras e das instalações técnicas do Teatro Municipal, São Carlos passou a ser uma referência no cenário nacional do que se fazia de mais relevante e moderno na produção das Artes Cênicas. Uma enorme oportunidade para os amadores – amadores no sentido de amarem a arte que fazem – mostrarem seus talentos e suas criações.

Ainda nas “Memórias”, Névio Dias expressa suas afetividades: “[…] As paredes eram de alvenaria, sem reboco, não havia forro, instalações sanitárias, etc.”.  Registrando detalhes preciosos: “Neste período foi construído o piso do palco, cuja frente previa um fosso destinado a orquestras. Posteriormente, esse fosso foi coberto, ampliando o palco, formando a ribalta. Como o piso da plateia era de terra o mesmo foi recoberto com pedriscos para evitar poeira. As ‘poltronas’ eram formadas por bancos montados com taboas sobre tijolos.”  Só para se ter uma ideia do empenho e da dedicação com as coisas que envolvem o fazer teatral… e apaixonam quem as faz, diz que “o teatro passou a ter ‘vida’, pois dia e noite os grupos ali transitavam, ensaiavam, trocavam ideias, às vezes se desentendiam, mas o movimento florescia”, frisando a dedicação coletiva: “A primeira cortina foi confeccionada com tecido de juta comprada em Jaú pelo Dr. Perdigão. As amadoras é que fizeram as costuras. O funcionamento (abre/fecha) ocorria de forma vertical, através de um sistema de contrapeso (uma lata cheia de pedras). O aviso do início dos espetáculos era feito de forma tradicional, ‘pancadas de Molière: uma, duas, aviso; três, início.” (DIAS, 2009, p. 128).

E só para se ter uma ideia das dimensões, abrangências e participações dos Festivais, em 1975, o XIII FETAESP contou com 124 grupos e final em Franca, e o XIV, de 1976, novamente com final em São Carlos, teve a participação de 162 grupos, estabelecidos nas várias regiões do Estado!

No dia 22 de outubro de 1966 ocorreu a abertura das finais do IV FETAESP e a inauguração oficial do Teatro Municipal.

No dia seguinte, Laines Paolillo volta ao assunto: “Três bandas abrilhantaram a noite, respectivamente: do Ginásio Diocesano, a do Tiro de Guerra 43 e a da Polícia Militar de Araraquara. Após essas apresentações e dando início ao festival, o prefeito Antonio Massei e o sr. Nagib Elchmer […] cortaram no palco a fita simbólica, dando por inaugurado o Teatro Municipal. […]”.

Uma encenação muito especial aconteceu na data – ors concours – vencedora do 3º Festival Internacional de Teatro Universitário realizado em Nancy, na França: Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto, na montagem do TUCA – grupo de teatro da PUC-SP, musicada por Chico Buarque e com direção de Silnei Siqueira.

Três anos depois, o ano de 1969 marcou o calendário cultural da cidade – tempus mirabillis. Realiza-se durante a programação da “Festa do Clima”, de 29 de abril a 9 de maio, o I FNTASC – “Festival Nacional de Teatro Amador de São Carlos” com nada mais, nada menos que 21 grupos de várias regiões do país – um sucesso nacional.

O I FNTASC foi inaugurado com o espetáculo Esperando Godot, de Samuel Beckett, pela Cia. Cacilda Becker & Walmor Chagas, com direção de Flávio Rangel.

Durante o movimentado evento sociocultural, no dia Primeiro de abril, o Teatro Municipal de São Carlos passou a ter o nome oficial de “Dr. Alderico Vieira Perdigão” e deu continuidade ao acolhimento dos vários grupos amadores, entre outros: “Paus de Arara”, “Porão 7”, “Equipe Teatral São Sebastião”, “Grupo de Teatro da Escola de Engenharia de São Carlos – CAASO” e “Grupo Original de Teatro Amador do SESC”.

E, assim, São Carlos reuniu mais uma vez as vanguardas teatrais. Dizendo sempre simmmm à Arte Teatral e resistindo culturalmente aos desmandos do tenebroso cenário político da época.

De certo, muito do que se viveu ainda ecoa pelo palco do Teatro Municipal “Dr. Alderico Viera Perdigão” e também na memória dos que, direta ou indiretamente, vivenciaram esses áureos tempos. É inevitável que, do pouco abordado aqui, muito ficou para trás, perdido nas dobras dos afetos e das realizações. Em resgate de possíveis perdas e de omissões, um pequeno trecho de uma crônica de Eduardo Kebbe, publicada em “A Folha”, de 12 de abril de 1977, intitulada “O Espetáculo”, para o fechamento das cortinas deste relato a respeito de período tão fecundo e vibrante:

“(..) Eu estive pensando que, em matéria de espetáculos artísticos apresentados nesta cidade, o tempo das vacas gordas acabou-se. […] As noitadas no Teatro Municipal local eram frequentes (e algumas até inesquecíveis), […] com o público lotando a casa. […]

Ao corte das verbas e a contenção de despesas se deve (suponho) a ausência dessas apresentações, que tanto nos deleitavam e ajudavam, mesmo a aliviar o nosso fardo de preocupações cotidianas. […] Houvesse, por exemplo, algum espetáculo nesta noite em que escrevo, noite de chuva que esvazia as ruas e entristece a vida, e eu abandonaria essa máquina e, impávido, acharia para lá […]. Mas, não existe nada, o teatro está fechado, às moscas, com seu palco mudo e escuro, sem apresentar uma cena, uma voz, um gemido, um violino, um esgar, uma máscara, uma lágrima, um riso, uma fantasia.

E, acuado em minha própria casa sem disposição para arrostar a chuva e o vento que varrem essas ruas sem interesse – como túneis de pedra onde ecoam raros e melancólicos passos – o único espetáculo real, audível e triste, que é precisamente o vento que cavalga as primeiras noites de abril.”

O Teatro tem visgo, gruda na gente, merda!

Eu sou Fernando Triques, e tenho por apelido o de Zebuino.

REFERÊNCIAS:

DIAS, Névio. Memórias- “o teatro amador no contexto cultural de São Carlos”, SP, ICACESP, 2009;

PIROLLA, Maria Cristina Girão. Resgate –“crônicas da antiga São Carlos”, SP, Felícia Ltda,1992;

Jornais “A Folha”; “O Diário”; “Correio de São Carlos”; “Tribuna de S. Carlos”;

Acervo UEIM-UFSCAR/FPMSC; Acervo Biblioteca CMSC.

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