17 de Abril de 2024

Dólar

Euro

Cultura

Jornal Primeira Página > Notícias > Cultura > Pesquisa possibilita experiências estéticas a pessoas cegas diante de obras de arte

Pesquisa possibilita experiências estéticas a pessoas cegas diante de obras de arte

Pesquisa da USP aponta possibilidades de criação e experimentação de deficientes visuais em exposições artísticas

15/02/2024 05h56 - Atualizado há 2 meses Publicado por: Redação
Pesquisa possibilita experiências estéticas a pessoas cegas diante de obras de arte

Foi a partir de experiências junto a pessoas com deficiência, instituições culturais e equipes educativas que a artista visual e fotógrafa Karen Montija, que também é educadora e especialista em acessibilidade cultural, desenvolveu sua pesquisa de mestrado intitulada Picasso Pinta Feio: Proposta de acessibilidade à experiência estética com a arte por meio da mediação com pessoas cegas e com baixa visão em espaços culturais.

A dissertação foi apresentada no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e teve a orientação da professora Maria Christina Rizzi. O estudo teve como principal objetivo promover a integração e participação de pessoas cegas e de baixa visão em exposições de arte.

O estudo de Karen se dá em torno da criação e aplicação do que ela chamou de “Proposta de Acessibilidade e Experiência Estética (PAEE)” de exposições artísticas para deficientes visuais. A criação de uma experiência estética em artes visuais é, conforme o nome indica, pensada sobretudo para o público vidente, com espaço muito reduzido para outros sentidos.

“Por conta disso, as ações educativas para pessoas cegas em exposições de arte, tradicionalmente, acabam sobrepondo a informação à experiência estética”, conta a educadora. “A informação e a experiência estética não são rivais, elas têm que caminhar juntas, e não apenas uma ou a outra.”

O problema está em como proporcionar uma experiência estética a partir de uma obra que o visitante não consegue ver, ou seja, como fazer a obra de arte ser sentida. Para isso, a Paee propõe que sejam criadas novas formas de apresentar a obra. Ao invés de tentar fazer uma representação fiel da obra, são criadas possibilidades que exploram outros sentidos e perspectivas, como um enfoque histórico ou nas cores, por exemplo.

“Um pé… Um navio”

Para melhor exemplificar a proposta de sua pesquisa, Karen propõe que imaginemos uma foto de “um pé sobre um navio”. Um visitante da galeria poderá ouvir a descrição da foto, ou até mesmo, em alguns casos, ter uma representação que possibilite o toque por meio de uma prancha tátil, em alto relevo, que represente a imagem. Para a pesquisadora, o método por si só não é o suficiente.

“A proposta de nosso estudo visa, por exemplo, a que seja construída uma maquete de um navio e que o visitante deficiente visual possa tirar seu calçado e, de fato, pisar no navio”, descreve a artista. Um dos princípios da Paee é justamente propor à pessoa cega uma experiência estética, que na definição da educadora é “aquilo que nos toca (…) que nos atravessa, que nos faz sentir e estética seria a qualidade dessa experiência, se ela é feliz, triste, aterrorizante e por aí vai”.

“Fazer alguma coisa que permita com que a pessoa cega ou de baixa visão tenha uma experiência com artes visuais já é uma criação (…) O que se propõe é que não se imite, mas sim que se amplie a maneira de representar a obra”, explica a pesquisadora, destacando a importância de considerar o repertório, os interesses, as referências e as formas de experimentar e interagir com o mundo de cada pessoa com deficiência visual que poderá ter contato com a obra de arte, o que abre margem para novas criações.

“As pessoas com deficiência visual, muitas vezes, são impedidas de viver essa experiência estética, porque a maioria dos recursos disponibilizados são para suprir a falta do que ela não vê e não proporciona uma experiência estética.”

Recomendamos para você

Comentários

Assinar
Notificar de
guest
0 Comentários
Comentários em linha
Exibir todos os comentários
0
Queremos sua opinião! Deixe um comentário.x