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Bater é educar?

A criança, que antes buscava segurança e amparo na figura dos cuidadores, vai perdendo essa confiança

29/10/2023 06h18 - Atualizado há 7 meses Publicado por: Redação
Bater é educar?

Quando abordamos o tema da violência infantil, uma das coisas das quais precisamos falar sobre é a “cultura da palmada”. Ou seja, da normalização que existe no imaginário de que agredir uma criança é uma forma de corrigir seu comportamento. Afinal, é comum ouvirmos frases como “apanhei e não morri” ou “levei tapas quando criança e estou bem”.

Essas frases nos falam sobre duas coisas. Primeiro, sobre um saudosismo exacerbado. Sobre a tendência de achar que as coisas no passado eram melhores porque eram mais difíceis. E segundo, sobre um desejo de exercer poder e vingança sobre o próximo, afinal, se eu já tive que passar por esse ritual de iniciação, por que não posso fazer com que outros também passem?

Mas, se a violência é o caminho correto, se agredir uma criança que ainda não tem controle de suas emoções e depende do outro para aprender a lidar com aquilo que é incômodo dentro de si, por que isso é ilegal? Afinal, a lei L13.010 de 2014, torna proibido o uso de castigos físicos, cruéis ou degradantes na educação e cuidado de crianças e adolescentes.

E não é só a legislação que nos mostra os contrapontos dessa postura. Pesquisas e estudos diversos nos mostram e comprovam que comportamentos violentos mostrados pelos pais são aprendidos como a forma de lidar com sentimentos de: decepção, raiva e angústia.

A criança, que antes buscava segurança e amparo na figura dos cuidadores, vai perdendo essa confiança. E, com medo de novas agressões, desafia, mente e engana para se autopreservar, começando a ver essas pessoas como oponentes a serem desafiados. Até abrindo espaço para alguns transtornos no futuro.

E esse modus operandi é repetido pela criança em outros ambientes, como por exemplo, o escolar. É extremamente comum que pais que agridem seus filhos relatem que esses mesmos filhos têm problemas de socialização, desafiam figuras de autoridade ou agridem outras crianças. Comportamentos que podem ser levados para a vida adulta.

É comum também ouvirmos que “tal criança é uma peste” ou “sempre deu trabalho”. No entanto, todas as crianças dão trabalho. É preciso que os pais aprendam a impor limites sem recorrer à violência. É necessário que não se perpetuem as estatísticas de um Brasil em que a própria moradia é um local de reincidência de violência infantil e intrafamiliar.

Em vez disso, a família tem que se tornar um espaço acolhedor e educador. Mas não é necessário fazer isso sozinho.

 

Psicólogo formado pela PUC-Campinas.

Psicanalista pós-graduado pela Mackenzie-SP.

Especializado em Psicanálise, Gênero e Sexualidade pelo Instituto Sedes Sapientiae.

Matheus Wada Santos

CRP 06/168009

@psi_matheuswada

(16)99629-6663

[email protected]

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