Artigo

A questão da tração animal em São Carlos e a dificuldade em produzir sínteses

Djalma Nery*

Na sessão da Câmara de São Carlos do dia 2 de setembro, vivemos um momento que poderia ter sido histórico para a cidade: o fim do uso de veículos de tração animal. O que tinha tudo para ser um avanço equilibrado — com justiça social e proteção aos animais — acabou se transformando em frustração. E não por falta de soluções, mas pela incapacidade de diálogo que tomou conta da Casa de Leis.

Junto com a vereadora Fernanda Castelano, apresentei emendas que buscavam salvar o projeto de autoria do vereador Elton Carvalho. Corrigimos erros do texto original, estabelecemos um prazo razoável de transição, oferecemos alternativas de renda e garantias aos carroceiros. Fizemos o que cabia a nós: propusemos saídas concretas, viáveis e socialmente responsáveis. Mas, ainda assim, preferiram rejeitar tudo — inclusive o próprio autor do projeto.

As emendas que apresentamos não eram barreiras, mas pontes. Demos até 36 meses para a transição, propusemos a criação de cooperativas, programas de capacitação profissional e a substituição gradual das carroças por meios de transporte mais dignos e modernos. Também delimitamos a proibição apenas ao perímetro urbano, preservando as atividades rurais e agrícolas. Eram propostas justas, capazes de conciliar interesses e evitar exclusões.

Infelizmente, em vez de buscar consensos, a pauta transformou-se em um palco de guerra de torcidas, onde ninguém se escuta. O autor do projeto não aceitou mudanças, os contrários se fecharam ao diálogo e ainda houve espaço para o oportunismo de quem nunca defendeu um lado ou outro aparecer.

Avalio que perdemos a oportunidade de aprovar uma lei equilibrada, que protegeria os animais sem abandonar os carroceiros. A cidade perdeu porque faltou diálogo.

No fim, todos saíram prejudicados: os animais, que continuam explorados; os trabalhadores, que seguem sem alternativas reais; e a própria cidade, que se vê refém de polarizações improdutivas de seus representantes.

São Carlos precisa de legisladores e gestores capazes de mediar soluções e dispostos a resolver demandas coletivas com coragem, paciência e escuta ativa – atributos essenciais à verdadeira democracia.

 

*Djalma Nery (PSOL) – Vereador na Câmara de São Carlos.

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