Todo 4 de novembro é, para o são-carlense, mais do que um feriado: é um convite ao exame de consciência coletivo. Ao chegar aos 169 anos, a cidade nos pede que indaguemos menos sobre o que fomos e mais sobre o que estamos dispostos a deixar. Fizemos de São Carlos a capital nacional da tecnologia, mas aprendi, no exercício do mandato, que um título não basta. É preciso que a inovação seja percebida no cotidiano das pessoas: na saúde que atende, na escola que acolhe, na rua que não alaga e no serviço público que funciona.
Reconheço, com a franqueza que a data merece, que o crescimento da cidade nem sempre foi acompanhado, na mesma proporção, pelos investimentos em infraestrutura, mobilidade, drenagem e serviços públicos, desafio comum a tantas cidades brasileiras. Assumimos a Prefeitura num contexto de finanças delicadas, em meio às dificuldades econômicas que o país atravessa e que pressionam as contas de inúmeros municípios. Isso exigiu responsabilidade fiscal, reorganização administrativa e a revisão de prioridades. É sobre esse alicerce, nem sempre visível, que temos reconstruído a capacidade de investir do Município.
Dessa reconstrução nasce um conjunto de projetos estruturantes, concebidos para a cidade que seremos daqui a vinte ou trinta anos. O mais simbólico talvez seja o Distrito de Inovação, que reuniu Prefeitura, Governo do Estado, USP e UFSCar na etapa inicial de coalizão prevista na Política Estadual de Distritos de Inovação. Não se trata de criar uma estrutura física, mas de integrar, com sinergia, os ativos científicos e tecnológicos que já possuímos. Soma-se a ele o projeto do Quadrado Tecnológico, que pretende revitalizar a região central e aproximar SENAI, SENAC, Onovolab, empresas, startups e universidades, estimulando novos negócios, empregos qualificados e o turismo científico e de negócios. Na própria gestão pública, a integração das informações de todas as áreas da Prefeitura e a digitalização dos serviços reafirmam que uma Capital da Tecnologia não pode conviver com burocracia e dados fragmentados.
A tecnologia, porém, só se justifica quando chega às pessoas. É assim na saúde, onde, em parceria com o Governo do Estado, avançamos com o AME Cirúrgico, de investimento previsto de R$ 64,7 milhões, que será erguido em terreno de 16,6 mil metros quadrados doado pelo município, próximo ao Hospital Universitário da UFSCar. Em regime de Hospital Dia, poderá realizar por mês 10 mil consultas e 4 mil exames e cirurgias. A UPA Vila Nery, na Zona Leste, com R$ 13,6 milhões, descentralizará o atendimento de urgência, e o OncoNova Cancer Center já oferece dignidade e esperança aos pacientes oncológicos da região. Na educação, priorizamos a ampliação de vagas na educação infantil, com a CEMEI Sílvio Padovan, no Ipê Mirim, capaz de atender 94 crianças, e o novo prédio da CEMEI Dionísio da Silva.
Na mobilidade, a duplicação de 30 quilômetros da SP-318 e as terceiras faixas da SP-310 integrarão melhor a nossa região. No plano municipal, o Tarifa Zero no transporte coletivo aos finais de semana e feriados e a pavimentação de 2,1 quilômetros da Avenida Ray Wesley Herrick traduzem a convicção de que mobilidade é, antes de tudo, segurança e qualidade de vida. Na mesma linha, a revisão do Plano Diretor, há anos esperada, e a ampliação do sistema de abastecimento do Cedrinho, com R$ 10,3 milhões, garantirão que o crescimento seja organizado e que a infraestrutura caminhe ao seu lado. No conjunto, o pacote anunciado pelo Governo do Estado ultrapassa R$ 750 milhões para São Carlos e a Região Central.
Reservo, no entanto, as últimas linhas à causa que mais exige de nós coragem: o enfrentamento das enchentes. Obras de drenagem e macrodrenagem ficam sob o asfalto, não ocupam vitrines e raramente se convertem em votos. Mas protegem vidas, comércios e rotinas, e poupam a cada chuva forte o receio que há décadas assombra comerciantes e famílias, sobretudo na região central. Por isso trabalhamos na articulação com os governos estadual e federal para viabilizar intervenções de grande porte. O Piscinão da Travessa 8, com investimento superior a R$ 120 milhões do Governo do Estado, é a mais importante delas. A ampliação do Reservatório Simeão, na Vila Prado, alcançará 132.100 metros cúbicos. O canal de ligação com o futuro piscinão, na região do Parque da Chaminé, avança com licitação de R$ 10 milhões. E seguimos em busca de recursos federais para o Reservatório Gregório 4, com capacidade estimada em cerca de 250 mil metros cúbicos. Sabemos que não há solução simples nem imediata, e por isso o caminho é estrutural: obras integradas, manutenção permanente e controle da ocupação do solo.
Esse é o sentido que atribuo ao mandato: plantar sombras sob as quais talvez não nos assentemos, mas que abrigarão os que vierem depois. Os pioneiros desta terra não viram a universidade nascer, e nós talvez não vejamos todos os frutos do que semeamos. Pouco importa. O que dignifica a administração pública é a generosidade para com as gerações que ainda virão. Por isso, mantenho abertas as portas do diálogo com os governos estadual e federal, e o foco desta gestão permanece nas demandas da população, hoje e sempre.
Aos 169 anos, São Carlos não olha apenas para o passado que a honra: encara o futuro que a convoca. Que sejamos a cidade que ensina, que descobre e que cuida, unindo o saber dos laboratórios à sensibilidade das ruas.
Parabéns, São Carlos!
Netto Donato
Prefeito de São Carlos
