O “Dia dos Pais” é nacionalmente celebrado no 2º domingo de agosto de cada ano. Com o feriado possibilitando reflexões sobre o papel real e saudável de um pai nos dias de hoje. Para que se possa entender se o que ainda faz sentido é apenas o arquétipo de um provedor autoritário, sem sentimentos, agressivo e violento com seus filhos, como ocorre em alguns casos, mesmo em 2026.
Em agosto de 2026, um menino de 3 anos foi morto, após agressões e torturas extremas em Palmas-TO, após a mãe solicitar pensão alimentícia para a criança. No mesmo mês, no Morro da Fumaça-SC, um menino de 5 anos foi chicoteado pelo pai após desobedecê-lo. Em julho deste ano, outro menino de 3 anos foi agredido e morto pelo pai após “não dar bom dia” conforme ensinado na cidade de Viamão-RS. E, ainda em julho um pai foi indiciado por chutar, castigar fisicamente e torturar os filhos de 5 e 3 anos por não se comportarem como ele desejava, na cidade de Francisco Beltrão-PR.
Esses são apenas 4 casos que tiveram maior repercussão entre o início de julho até agosto. Mas ilustram sobre como certas pessoas entendem que o papel de um “pai” deve ser desempenhado. Ainda como sendo um provedor autoritário, sem sentimentos, agressivo e violento com seus filhos.
E também diz sobre um acordo social implícito de silêncio e permissividade, no qual o “pai” pode ser violento, torturar os filhos e matá-los, sem ser questionado. Porque há certa crença de que a violência é uma forma de educação ou de que “forma caráter”. O que não é verdade.
O psicanalista D. Winnicott discorreu em diversas obras, publicadas durante mais de 10 anos, a partir de 1955, sobre como o papel de um pai deve ser outro, não envolvendo autoritarismo e nem violência. Em suas pesquisas explica-se que após o nascimento, na verdade, cabe a quem desempenha a função paterna o ato de dar suporte e estabilidade para a proteção do bebê, desempenhado por quem faz a função de “mãe”.
Por isso, a função paterna não é restrita a um homem, classe social, gênero, sexualidade ou a mesmo uma única pessoa. Podendo ser desempenhada por pais, mães, irmãos, avós, família estendida, amigos, instituições (como escola ou igreja) ou por serviços de saúde (como hospitais ou por psicólogos). O importante é a representação psíquica e afeto da pessoa para a pessoa.
Ademais, para Freud em suas obras “A interpretação dos sonhos” (1900) e “Totem e Tabu” (1913), a figura paterna serve para permitir à criança começar a criar sua independência e autonomia da figura da mãe, pelo Complexo de Édipo. Isso é feito quando o “pai” ajuda a criança a entender sobre limites das relações e respeito às normas e regras sociais. Deste modo, se ensina a criança a lidar com frustrações através da internalização da segurança, cuidado e aprendizado sobre como lidar com frustrações.
Desta forma, quando se nega a ciência e se recorre a barbárie, se resulta em morte ou em: inabilidade de se relacionar; quebra de vínculos familiares, de amizade, trabalho e amorosos; dificuldade de lidar com figuras de autoridade; transtornos ansiosos ou depressivos; mentiras compulsivas; agressividade e violência pela repetição do que foi sofrido; e danos neurobiológicos.
Assim, cabe à Psicologia e ao psicólogo questionar e orientar sobre a real função dos pais. Permitindo que se criem filhos de uma forma mais segura e saudável. E, entendendo sobre o que se quer e deve reproduzir e ensinar de forma que faça sentido.
Psicólogo Matheus Wada Santos (CRP 06/168009)
Psicanalista especializado em gênero e sexualidade
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