O poeta Olavo Bilac (1965-1918) discorria sobre a mutabilidade e dinamismo da língua falada e escrita. Para ele, a comunicação se adequa ao contexto, região, faixas etárias e classes sociais dos falantes. Algo que é comprovado e estudado pela sociolinguística. Com o foco em como as tecnologias, política e contexto social influenciam a linguagem de cada geração.
A popularização das plataformas sociais e digitais, sem nenhum tipo de supervisão, tem este impacto direto na língua e na sua autopercepção. Isso ocorre desde trazer expressões de outras línguas até de suavizar o moral e eticamente errado. Porque, o filtro para atingir as massas, aqui, passa por enganar com neologismos e novas expressões, fazendo com que a violência seja vestida como algo legal e leve.
A cultura da misoginia, por exemplo, não é algo recente. Desde o fim de 2022 há pessoas de amplo alcance nas redes sociais pregando ódio, violência sexual e desejo de morte a antigas parceiras. Como os casos do influenciador conhecido como “Calvo do Campari” que envolvem múltiplas ameaças de morte a uma humorista e tentativa de estupro a uma ex-namorada, todas gravadas e publicadas em redes sociais.
Porém, o que passou a ser vendido nas redes recentemente são termos como mais afáveis, como “Alpha”, “Beta”, “RedPill”, “tradwife” e etc. Os quais “dizem sem dizer” que o ódio, agressividade e violência são características hierárquicas de homens bons, morais e de líderes financeiros e culturais. Mas somente de alguns homens, daqueles que se adequam a esse pensamento.
Enquanto (nesta lógica macabra) as mulheres seriam sempre interesseiras e submissas, servindo apenas para sexo, merecedoras de assédio e cuidadoras da casa. E para aquelas que resistam a essa “ordem natural”, é recomendado pela cultura misógina a violência corretiva.
Estas expressões passaram a incorporar algoritmos das redes e contextos de crianças e adolescentes de formas quase imperceptíveis, mas sempre gerando lucro pra quem vende o discurso. Até mesmo aparecendo em uma campanha publicitária do governo do Rio Grande do Sul.
Para a Psicologia, o repetir de termos e expressões de preconceito e violência, mesmo que como brincadeira, cria um mecanismo psicológico de validação da desumanização de certos grupos e redução da empatia pessoal. Como é descrito e estudado nas obras de Judith Butler sobre filosofia, política e ética.
A Psicanálise explica também que isso ocorre, pois, a pessoa que está nesta lógica da desumanização do outro, passa a ser dependente de um apoio externo para que a própria identidade possa existir. Encontra-se no grupo e nas linguagens de ódio um senso de pertencimento temporário, no qual se desloca a própria insegurança para a pessoa ou grupo que serão atacados.
Neste sentido, é importante o papel do psicólogo para identificar estes movimentos e entendê-los. Além de também criar a conscientização para que não se caia em um movimento de manada e a própria identidade seja substituída apenas por ódio e preconceito.
Psicólogo Matheus Wada Santos (CRP 06/168009)
Psicanalista especializado em gênero e sexualidade
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