O Dia das Crianças é comemorado em 12 de outubro no Brasil desde 1924. E vai para além de uma data comercial. Surgiu de uma iniciativa política protetiva e educacional e se tornou lei. A data se estabeleceu com objetivos de: cuidar, atender, garantir direitos mínimos na infância e enfrentar o contexto de trabalho infantil estabelecido até aquele momento.
A cidade de São Carlos-SP, segundo a base de informações “Primeira Infância em Dados” (2026), tem 20.925 crianças de 0-6 anos. Com mais de 80% dependendo do acesso público às escolas (federal, estadual ou municipal). E com 38,41% do total de crianças necessitando do acesso a programas de proteção social para a sobrevivência, como Cadastro Único, LOAS ou Bolsa Família.
De acordo com o “The Lancet Public Health” (revista científica internacional de saúde pública) e a Fiocruz (principal instituição de ciência, tecnologia e inovação em saúde da América Latina, vinculada ao Ministério da Saúde do Brasil), o impacto social direto de todas essas políticas públicas foi o de evitar mais de 700 mil mortes e 8 milhões de internações hospitalares de crianças no Brasil entre 2004 e 2019. E, associadas à obrigatoriedade de vacinação e presença escolar, os programas também resultaram na diminuição da pobreza extrema das famílias e insegurança alimentar, fazendo com que 64% dos usuários deixassem de usá-los neste mesmo período.
Em 2026, mesmo frente aos dados disponíveis de forma gratuita e mudança da realidade contínua, que melhorou a vida de todas as crianças no País, muitos candidatos se elegeram com a promessa de não manter esses programas e de desmonte imediato das políticas sociais e educacionais. Ou, até mesmo, associando crianças e famílias que dependem desses ao crime. Sempre embasando o discurso no ódio de a um outro, que teria outro lado político, cor de pele, orientação, regionalidade ou classe social.
Essa tendência, para a Psicologia e Psicanálise, se explica em razão de sentimentos de desprezo, acompanhados de negacionismo. Por um lado, muitos sentem que os esforços e sacrifícios são desprezados ao verem que pessoas “que não sofrem ou se esforçam o suficiente” teriam acesso aos mesmos direitos na vida que eles mesmos. Por outro, muitos que já estiveram em situações precárias, não se reconhecem mais ali. E o medo de reviver aquela realidade se traduz em ódio e desprezo por quem ainda está mais vulnerável.
Há uma articulação psíquica para negar as necessidades de existência de uma pessoa que lembra algo ruim pelo qual já se passou. E se faz isso não admitindo até mesmo a verdadeira face desse desprezo, com falas veladas ou desconsiderando a seriedade do que é dito. A consequência imediata é que se cria no imaginário compartilhado a imagem de que só algumas crianças têm direito a acessar espaços escolares, de saúde, de compra e de lazer, enquanto outras ficariam estigmatizadas e à margem, seriam corpos estranhos no feriado e no dia a dia.
Neste cenário, o trabalho de qualquer psicólogo deve ser sempre em respeito aos Direitos Humanos, à promoção da saúde, da qualidade de vida e do bem-estar do indivíduo e da comunidade. Visando eliminar processos de marginalização e em proteção das políticas públicas que ainda se fazem necessárias. Conforme o Código de Ética da profissão.
Na psicoterapia, isto é feito abrindo-se um local seguro de diálogo para que a pessoa identifique suas defesas e negações, sendo acolhida nos desamparos, angústias e traumas passados. Criando-se assim um espaço psíquico empático que permita ser menos egoico e olhar para o outro e suas situações.
Psicólogo Matheus Wada Santos (CRP 06/168009)
Psicanalista especializado em gênero e sexualidade
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