O projeto de 2010 “Escola sem homofobia” previa a capacitação de professores e educadores do ensino fundamental II e médio. Dentre os objetivos estavam a prevenção ao bullying, enfrentamento à discriminação por gênero ou orientação sexual, ensino sobre inclusão, combate e denúncia à violência no ambiente escolar.
Porém, no ano de 2011, as “fake news” sobre um “kit gay” surgiram a partir de falas do então deputado Jair Bolsonaro. Segundo o mesmo, o objetivo do “kit gay” era o de “distribuir imagens e objetos sexuais” para crianças e estimular a pedofilia. Apesar de terem sido criadas com materiais falsos, tal discurso é repetido e disseminado até hoje.
Isto resultou em uma revolta pública, doações para campanhas eleitorais que “combateriam” o kit e vídeos altamente remunerados nas redes sociais. Por fim, o verdadeiro “Escola sem homofobia” foi vetado e outros projetos que tratavam sobre o combate ao bullying, saúde mental e prevenção ao abuso sexual infantil no ambiente escolar também sofreram boicote subsequente.
Já em setembro de 2025, Donald Trump afirmou que o paracetamol causava autismo. Pouco depois, discursou sobre uma cura: a medicação Leucovorina (ácido fólico), resultando no aumento das vendas da Leucorovina, mesmo após o órgão regulador de saúde dos EUA e a OMS (Organização Mundial da Saúde) comprovarem tudo como mentira.
As chamadas “fake news” são notícias falsas ou enganosas que se passam por fatos verídicos, tendo o objetivo de chocar e sabotar o alvo da chamada, a partir de um engajamento sentimental em massa sobre o tema e com o uso de títulos exagerados, além de se propagarem principalmente pelas redes sociais e aplicativos de mensagem.
Sua disseminação frenética resulta no retorno financeiro aos seus criadores e influencia o cenário geopolítico de um país, pois há uma distorção planejada, brutal e desenfreada da realidade. Além disso, quando se mostra a verdade, as pessoas já não costumam mais estar interessadas no assunto.
A Psicologia e a Psicanálise explicam que o fenômeno de propagação das notícias falsas é tão avassalador porque remete a um alívio de um mal-estar, angústia ou preconceito menos conscientes. Isso devido à “negação”, um mecanismo de defesa do psiquismo, que busca soluções mágicas através de simplificações convenientes para criar um refúgio imaginário da pessoa.
Ou seja, como algo falso pode justificar o que está latente e que não se pode expressar de forma aberta, a mentira ganha status de uma verdade absoluta e indiscutível. Adquirindo peso e valor maiores do que a realidade. Assim, quando se vê a notícia falsa, se escolhe não refletir. E isso repetidamente desvalida a experiência real, a verdade vira o que “se sente que é a verdade”.
Isto resulta em um contato fragmentado com a realidade. Portanto, a presença dos outros e a necessidade de viver uma experiência passa a ser inútil. O indivíduo utiliza cada vez menos do próprio senso crítico para poder se isolar no que é confortável. Deste modo, se para de acreditar na educação, na ciência e na própria saúde
A importância da psicoterapia se exemplifica pela disponibilidade do encontro com o outro para se questionar, refletir, elaborar e entender sobre o que é vivido na realidade e sem julgamentos, podendo enfrentar os próprios desconfortos, medos e preconceitos, sem a necessidade constante de se negar tudo de maneira conveniente e delirante. É a disponibilidade de prevenção, cuidado e melhora em saúde física e mental.
Psicólogo Matheus Wada Santos (CRP 06/168009)
Psicanalista especializado em gênero e sexualidade
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