Psicologia em Foco

“Hyrox”, performatividade e as redes sociais

Freepik/Magnific

No dia 12 de setembro de 2026, a atleta australiana Joanna Wietrzyk, de 22 anos, foi a vencedora de uma prova internacional de Hyrox em Pequim, na China. A modalidade de esporte consiste em provas com trechos de corrida de 1 km alternados com estações de equipamentos para exercícios funcionais de alta intensidade, com duração média de 1h30. E realizadas em grupos e ambientes fechados.

Durante a competição, Joanna teve incontinência fecal antes da metade do seu tempo de prova e continuou a competir com fezes escorrendo de suas pernas. Causando contaminação do local de prova e equipamentos que estavam sendo usados por outros competidores. Após os vídeos circularem na internet, o nome da atleta ficou famoso para além do seu nicho de esporte e sua imagem profissional foi associada não só ao ocorrido, mas a ideias de “perseverança” e “esforço”.

A escolha de Joanna diante das câmeras remete a uma questão para além do risco físico apresentado naquele momento. Ilustra um desejo de expor a sua imagem de competidora a um extremo para o público, mesmo que a vitória venha através de uma trapaça ou sabotagem. No fim, não era a competição saudável e nem ganhar em si que faziam sentido, o objetivo era ser vista e aplaudida. E esse é o chamado “comportamento performático”, um sintoma.

Comportamentos performáticos (também chamados de performatividade) são falas, ações ou posturas que criam encenações (sempre frente a um público) que não condizem com a realidade da pessoa. Na verdade, criam efeitos ou ideias falsos sobre a identidade delas. Para a Psicanálise, esse comportamento advém de uma necessidade interna de aprovação, atenção, insegurança ou de autoproteção.

No cenário sociocultural mais recente, as redes sociais trouxeram um aumento súbito de performatividade. Principalmente, frente às diversas cobranças e competições do dia a dia. Desse modo, se tornar alguém produtivo, feliz o tempo todo, funcional, normal, magro, rico, bem sucedido, viajante, culto, etc., ou todos esses ao mesmo tempo, passou a ser possível. Porque, há a ideia de que a imagem exposta nas redes é o que dá valor ou não para a identidade e existência de uma pessoa. Valendo mais do que a sua própria saúde ou identidade. Conforme ocorrido no caso da atleta.

Como resultado, ao se repetir extensivamente estas performances, o indivíduo sabota a própria autoconfiança e autoestima. Se cria uma dificuldade de diferenciação entre a identidade real e a performática. Resultando em ansiedade, medo de falha, burnout, depressão, exaustão, dificuldade de criar vínculos e transtornos de identidade e imagem.

Neste sentido, o espaço da psicoterapia se propõe como aquele que permite a expressão da identidade real de cada um com segurança e livre de julgamentos. Com o objetivo de que se deixe de buscar comportamentos performáticos. Além de se desenvolver melhor a autoestima e confiança.

Psicólogo Matheus Wada Santos (CRP 06/168009)

Psicanalista especializado em gênero e sexualidade

Redes: @psicologo_matheuswada

WhatsApp: (16) 99629 – 6663

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