Há expressões idiomáticas que começam como comédia e se estabelecem na tragédia. Uma delas é a popular “lá ele”, uma gíria brasileira e originária da Bahia, inicialmente utilizada para evitar frases ou conversas maliciosas. Porém, que posteriormente passou a ser empregada para policiar e condenar comportamentos considerados inadequados a um ideal de masculinidade. Além de também ser uma maneira de constantemente indiciar a orientação sexual de alguém.
Sabe-se que a masculinidade na verdade é um conceito com caráter social e histórico. Não é necessariamente biológico e não é demonstrativo direto da orientação sexual de alguém. Porque, na verdade, se refere aos papéis e comportamentos que são cobrados de pessoas que se identificam como mais ou menos masculinas ou femininas, assim como as liberdades dadas as elas.
Porém, a vigilância autoritária sobre a masculinidade de um homem (de qualquer idade), e seus comportamentos, é uma forma de repressão afetiva e comportamental. A qual busca controlar como alguém pode viver em sociedade e a quais liberdades terá acesso. Implica que a masculinidade precisa ser constantemente exibida e comprovada para que o homem tenha seu lugar de pertencimento e merecimento de existência sociais.
Segundo a Psicologia e a Psicanálise, a pressão dessa vigilância da masculinidade leva ao se adequar e performar as normas de gênero masculinas (independentemente de quais sejam) sem se medir suas consequências. O que resulta em comportamentos de risco, não reconhecimento do sofrimento e questões identitárias. Isto devido ao fato de que se implicam na não demonstração de afeto e vulnerabilidades masculinas.
Sejam em caráter: de não poder ser afetivo em relacionamentos de amizade, familiares ou amorosos; não ter a opção de se comportar como quer, escolher trabalhos ou roupas desejados; não aceitar ajuda quando se enfrenta dificuldades; e não buscar tratamentos de saúde física e mental. Pois, há a crença de que não performar em um padrão falso e idealizado resultará em deboche ou abandono (afetivo e financeiro).
O quadro se ilustra nas escolas, por exemplo, onde adolescentes utilizam da gíria “lá ele” (entre outras) na dinâmica do bullying em suas diversas formas. O Ministério da Saúde (2024), também registra que menos de 70% da população masculina vai ao médico pelo menos 1 vez ao ano. Sendo os homens a parcela demográfica prevalente em casos de complicações médicas por diabetes, HIV e AVC. Ademais, em 2025, o Governo Federal registrou 78% do total das mortes por suicídio no país foram do sexo masculino. Como resultado, o IBGE (2023) registra que os homens vivem em média 7 anos a menos do que as mulheres no Brasil.
Neste cenário, é importante o papel da terapia com o psicólogo especializado em questões de gênero e sexualidade. Pois, é a partir da discussão e entendimento destes temas que é possível se propor acolhimento adequado. Além de estratégias de tratamento e intervenção válidas e reais para o contexto. Respeitando a identidade e contexto social de cada pessoa.
Psicólogo Matheus Wada Santos (CRP 06/168009)
Psicanalista especializado em gênero e sexualidade
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