Por que falar disso numa coluna que será lida no dia da eleição que definirá o destino do Brasil não nos próximos quatro anos, mas provavelmente nas próximas décadas?
Carlos Ferreira Martins*
O Médico e o Monstro é a tradução em língua portuguesa de um romance de Robert Louis Stevenson, do final do século XIX, originalmente chamado O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde.
Stevenson é mais conhecido na literatura juvenil pelo clássico A Ilha do Tesouro. Mas o impacto do romance gótico foi tão grande que a expressão “Jekyll e Hyde” é usada para indicar uma pessoa que age de forma moralmente diferente dependendo da situação ou, na visão da psicologia moderna, o fenômeno de múltiplas personalidades.
E por que falar disso numa coluna que será lida no dia da eleição que definirá o destino do Brasil não nos próximos quatro anos, mas provavelmente nas próximas décadas?
Porque a metáfora do médico e do monstro, ou seja, da vontade de salvar vidas ou do impulso de destruí-las, como faces opostas do mesmo indivíduo, pode ser aplicada tanto ao Brasil como a nossa cidade.
E mais. Essa dupla face se fez presente de forma material e concreta na última quinta-feira em São Carlos.
Para quem não pode acompanhar as notícias, a quinta-feira começou com o comparecimento do Vice-presidente Geraldo Alckmin à Santa Casa de Misericórdia, onde recebeu placa comemorativa de sua indicação como Irmão Benemérito, feita em 2014, em reconhecimento por suas ações como governador de São Paulo em benefício das Santas Casas do Estado.
Em suas breves palavras de agradecimento, Alckmin relembrou seu compromisso pessoal, como médico, com as Santas Casas e ainda, seu especial vínculo afetivo a São Carlos, lembrando a figura de Dona Alexandrina Melquíades de Alckmin, sua tataravó, benemérita que hoje é lembrada como nome da famosa rua.
Depois disso, Alckmin participou de animado comício na Praça do Mercado, onde em meio aos bandeiraços, aos jingles e à militância, enfatizou a importância desta eleição, especialmente para a democracia e a continuidade dos investimentos na saúde pública e na ampliação e fortalecimento do SUS, seu mote permanente.
Horas depois, tivemos um outro ato político na Praça Coronel Sales. Um número bem menor de militantes, a julgar pela imagens disponíveis nas redes sociais, defendiam o voto no filho de Bolsonaro.
Em princípio nada de incorreto, simples exercício democrático do direito de expressão. E o fato do prefeito da cidade estar presente à manifestação também não causaria nenhuma estranheza, dado seus declarados vínculos pessoais com a família Bolsonaro.
Mas ocorreu uma cena dantesca, que já provocou reações a ponto de o prefeito tê-la apagado de suas redes sociais, mas que ainda está por aí na web esfera: o prefeito (sic) carregando um caixão decorado com estrelas petistas!
Quem achar que isso é normal é porque nada entende do que seja convivência democrática. Ou já abriu mão dela.
Desejar a morte de uma partido é desejar e, pior, insuflar nos demais o desejo da morte de uma parcela da população de sua própria cidade e do seu país!
No plano simbólico, as duas manifestações expressam extraordinariamente bem o que está em jogo no Brasil de hoje: a preservação e valorização da saúde e da vida ou o elogio e a ameaça da morte.
No plano individual fica a dúvida sobre a dupla personalidade de Netto Donato. Ele é o prefeito gentil e respeitoso com quem falei ao telefone para as providencias necessárias ao comício da manhã ou o feroz convocador da morte que se apresentou aos seus acólitos na macabra celebração da noite?
E o que motiva essa explícita dupla personalidade? Entre os que conhecem melhor do que eu há opiniões diferentes. Alguns acreditam que é o efeito perverso da ideologia. Outros dizem que é puro negócio.
Em qualquer caso é a demonstração de que ele não é apenas administrativamente incompetente como mostra o triste abandono de nossa cidade. Ele é também desprovido de qualquer noção cívica do papel de um prefeito, que assume o compromisso constitucional de governar para todos.
É isso que Stevenson definia, metaforicamente, como o monstro escondido debaixo dos modos gentis do médico.
*Professor Titular Sênior do IAU USP São Carlos e Vice-Presidente do PT, nunca desejou matar nenhum bolsonarista.
