No Divã

Adolescência: quando crescer também significa se perder um pouco!

(*) Bianca Gianlorenço

A adolescência é uma fase de muitas transformações. O corpo muda, os pensamentos se tornam mais complexos, os vínculos com os amigos ganham novos significados e surge uma necessidade cada vez maior de construir uma identidade própria.

É justamente nesse período que muitos pais percebem uma mudança na relação com os filhos.

A criança que contava tudo começa a fechar a porta do quarto. O filho que buscava colo passa a pedir mais espaço. As conversas diminuem, as respostas ficam mais curtas e, algumas vezes, parece que os amigos sabem mais sobre ele do que a própria família.

Para muitos pais, isso pode ser angustiante.

Mas existe uma diferença importante entre respeitar o espaço do adolescente e deixar de estar disponível para ele.

O adolescente precisa de autonomia, regras e limites, mas também precisa saber que existe um adulto presente quando as coisas ficarem difíceis.

No Brasil, o maior número absoluto de casos de suicídio concentra-se entre os jovens, especialmente na faixa etária de 15 a 29 anos.

Nem sempre ele vai procurar os pais para dizer: “Estou sofrendo”.

Pode dizer que está cansado.

Pode ficar irritado.

Pode se afastar.

Pode perder o interesse por coisas que antes gostava.

Pode passar mais tempo no celular.

Pode mudar a forma de se vestir, de falar ou de se relacionar.

Algumas dessas mudanças fazem parte do próprio processo de crescimento. Outras podem indicar que existe um sofrimento que merece atenção.

Por isso, mais do que vigiar, precisamos aprender a observar.

Mais do que interrogar, precisamos escutar.

E, principalmente, precisamos evitar transformar toda conversa em uma bronca ou em uma tentativa imediata de dar conselhos.

Às vezes, o adolescente não precisa que o adulto tenha uma resposta pronta. Precisa apenas sentir que pode falar sem ser imediatamente julgado.

A saúde mental na adolescência também está relacionada à construção da autoestima, ao sentimento de pertencimento, à maneira como o jovem lida com frustrações, à pressão social, às relações familiares, à escola e ao mundo digital.

As redes sociais acrescentaram ainda uma comparação constante. O adolescente pode olhar para centenas de vidas aparentemente perfeitas e sentir que existe algo errado com a própria vida.

Por isso, precisamos conversar sobre saúde mental antes que exista uma crise.

Precisamos ensinar nossos adolescentes que pedir ajuda não é sinal de fraqueza.

Ficou na dúvida se o comportamento é típico da fase ou indicativo de questões psicológicas, busque ajuda especializada!

E precisamos lembrar que procurar ajuda psicológica não significa que os pais falharam ou que o adolescente “tem algum problema”. Significa reconhecer que determinadas fases da vida podem ser difíceis e que ninguém precisa atravessá-las sozinho.

Talvez uma das maiores formas de proteção que podemos oferecer aos nossos adolescentes seja esta:

“Você pode crescer, mudar, errar e descobrir quem você é. Eu continuarei aqui.”

Porque crescer não significa deixar de ter um lugar seguro para voltar.

(*) A autora é Psicóloga, inscrita no CRP/ SP sob o n° 06/113629 atuante desde 2013. Especialista em Psicologia Clínica com título concedido pelo Conselho Federal de Psicologia. Especialista em Psicologia Clínica Psicanalítica. Especialista em Psicoterapia infantil. Psicanalista. São-carlense e fundadora da Clínica Gianlorenço – Saúde Mental e Física. Contato profissional: WhatsApp 16 997375436

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do Jornal Primeira Página sobre o assunto.

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