Não é incomum de se ter um sentimento de estranheza inicial ao frequentar lugares e ver pessoas com comportamentos que destoam do que é esperado ali, as quais estão a todo momento ilustrando ser cultas, regradas, bem vestidas, afetivas e saudáveis. Mesmo que esta não seja a realidade delas.
Este sentimento de incongruência ocorre ao se ver um “comportamento performático”, em que o indivíduo prioriza a imagem a ser exposta, em vez das próprias vontades, gostos, emoções e angústias. É o oposto de quem se é, da própria identidade.
Para a psicologia, a identidade de cada um se forma de maneira continuada por toda a vida e envolve a conjunção de questões sociais, familiares, biológicas, psíquicas, de crenças e de papéis sociais. E, nesse processo, o contato com os pares é imprescindível, pois permite a criar a noção psíquica de quem se é e do que é o outro.
Ainda segundo a socióloga Judith Butler, a identidade de cada um é altamente afetada pelas possibilidades de se ter performances saudáveis sobre papéis sociais, como o gênero ou sexualidade, por exemplo. Para ela, ser capaz de performar influencia diretamente como se constrói a noção interna de quem se é. Ou seja, através da possiblidade de se portar com segurança na sociedade conforme se deseja, a pessoa encontra segurança para construir sua identidade, tal qual poder vestir roupas que se deseja e sentir segurança para frequentar um espaço público sem o medo de sofrer violência.
Já os comportamentos performáticos vêm em contraponto a isto tudo e o fazem de maneira sintomática porque, sejam conscientes ou inconscientes, o objetivo é de buscar atenção, afeto e validação. E não de expressar um desejo identitário.
De acordo com a psicanálise, isso ocorre através de um “acting out” (uma atuação). Em outras palavras, a pessoa atua como se estivesse se exibindo em um palco, sempre precisando de alguém para assistir. E a exibição expressa algo que não foi elaborado no inconsciente, é uma ação que fica no campo do impulsivo, para impedir a memória, a fala ou contato com o sentimento.
Um exemplo comum é a construção de “identidades digitais” por aqueles que se denominam como influenciadores, as quais são hábitos ou estéticas que os fazem parecer alvo de desejo e interesse 24 horas por dia, mas não correspondem ao quem estes são nas vidas privadas.
Essa interpretação de papéis falsos e busca por validação impacta diretamente na saúde mental. Visto que, ao repetir extensivamente estes comportamentos sintomáticos, se sabota a própria autoconfiança, autoestima e se passa a criar uma dificuldade de identificar o que é a identidade real e o que é performática. O que resulta em ansiedade, medo de falha, burnout, depressão, exaustão, dificuldade de criar vínculos e transtornos de identidade e imagem.
Tendo tudo isto em mente, o papel da psicoterapia é importante para que a pessoa crie a capacidade de suportar suas emoções e angústias, fortalecendo a própria identidade. Assim, sentindo a possibilidade de agir de maneira autêntica e não recorrendo a comportamentos sintomáticos e falsos em busca de aprovação externa e evitação de contato consigo.
Psicólogo Matheus Wada Santos (CRP 06/168009)
Psicanalista especializado em gênero e sexualidade
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