Em 24 de outubro de 2025, o psiquiatra Luís Augusto Rohde se tornou o primeiro brasileiro a receber o chamado “Nobel da Saúde Mental”, o Prêmio Internacional Ruane. O qual avalia pesquisadores da psiquiatria mundial. De acordo com Rohde, não houve um aumento significativo nos casos de TEA (Transtorno do Espectro do Autismo) na população mundial nos últimos 30 anos. Fala que é embasada em dados médicos e psiquiátricos, científicos e comprovados.
O que os dados demonstram, na verdade, é que houve a melhor definição do transtorno e aumento da categorização dos sintomas, resultando no acesso à informação mais amplo. Assim, criou-se a impressão, no senso comum, de que há mais pessoas com TEA do que antes, assim como de que quando, a verdade é que se sabe mais sobre.
No Brasil dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2022), registram 1,2% da população brasileira com o transtorno. Ademais, que os diagnósticos estão concentrados naqueles com maior taxa de escolaridade, renda e acesso a saúde. Isso implica no fato de que a crescente busca por serviços de saúde para o diagnóstico e tratamento do autismo está concentrada na parcela populacional brasileira de maior renda.
Como consequência mercadológica criaram-se os termos sinônimos: “Indústria do Autismo” e “Complexo Industrial do Autismo”. Os quais se referem a um mercado mundial e bilionário que coloca o TEA como um produto que deve ser fonte de lucro e não um transtorno de saúde a ser tratado. E, para isso, recorrem a apelos políticos inflamados, marketing de “padrão ouro de tratamento”, diagnósticos excessivos, planos de saúde elitistas e excludentes, tratamentos de bem-estar sem comprovação, fármacos acima do preço de mercado e de difícil acesso e vendas de terapias intensivas privadas com profissionais sem formação adequada, todas como soluções milagrosas. E tudo em função do lucro que o diagnóstico pode proporcionar.
Pesquisas recentes em Psicologia evidenciam como a Indústria do Autismo causa danos diretos às pessoas com TEA. Pois, na lógica de que o pagamento de altos preços cria resultados de melhora imediatos, permite-se que profissionais da saúde ignorem limites éticos, morais e da lei, violando os direitos dos pacientes. E, o fazem através de maus-tratos, uso da força física, chantagens, exposições, humilhações e agressões. Tudo isso, sob o discurso técnico de tratamentos de controle e mudança comportamental.
A questão não é de que uma pessoa com TEA não deve ter acesso a tratamentos, muito pelo contrário. É de que o tratamento deve ser sempre ético, ter comprovação científica e respeitar as individualidades de cada um. Entendendo-se que a saúde não deve ser vendida como um produto que vai gerar infinitos lucros. E que não é possível fornecer curas milagrosas.
Neste sentido, a terapia com um psicólogo tem como objetivo não só permitir à pessoa com TEA lidar com suas questões, como qualquer outra. Mas, também, de criar o suporte adequado, independência e funcionalidade a partir das individualidades de cada um. Resultando em saúde, física e mental, real para a pessoa autista.
Psicólogo Matheus Wada Santos (CRP 06/168009)
Psicanalista especializado em gênero e sexualidade
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