Há a escalada íngreme e acelerada das violências contra as mulheres, sendo mais expressiva em 2025 e 2026. Tanto de casos de violências sexuais, quanto de feminicídios (tipificação de crime na qual um homem mata uma mulher movido pelo ódio ao gênero dela).
De acordo com dados do Senado Federal (2025), foi catalogada uma média de 227 estupros de mulheres por dia durante 2025. Com o Ministério de Justiça e Segurança Pública (2026), relatando a média de 150 estupros de meninas de 0-14 anos por dia só no primeiro trimestre de 2026.
E, o “Mapa Nacional da Violência de Gênero” (2025), plataforma oficial do Governo do Brasil, registrou que entre 3 a 4 mulheres foram mortas por dia em 2025. Já em 2026, o Instituto Brasileiro de Direito da Família informou que os casos de feminicídio já chegam a 5 por dia apenas nos três primeiros meses.
Dados que se ilustraram em casos da mídia em 2026. Como o estupro coletivo e repetidas agressões contra uma adolescente de 17 anos na cidade do Rio de Janeiro no mês de janeiro. Outro estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos em Belo Horizonte após ser dopada, no mês de junho. Comentários sobre o desejo de abuso sexual contra o corpo sem vida de uma mulher de 21 anos que morreu ao ser arremessada de uma ponte para salto em queda livre em Limeira-SP. E as ocorrências em escolas de Ensino Médio e universidades nas quais alunos criaram listas de meninas e alunas que mereciam ser estupradas em São Paulo, Rio Grande do Sul e no Mato Grosso, no início deste ano.
Esta escalada não ocorreu do nada e os casos não são isolados. O conjunto expõe como a violência está no campo da permissividade social e que por isso, é amplamente ignorada. A cultura da violência se atualiza, classifica, estigmatiza e permite o abuso. Não é a vítima que não vê, é o grito de socorro dela que é ignorado.
No início desta justificativa da permissividade há a ideia de que o gênero feminino deve ser submisso, que a independência é um incômodo e não direito; e de que quem agride “deve ter algum motivo” para tal. Permissividades centrais em discursos misóginos e machistas, tendo o exemplo do movimento “RedPill”, que se popularizou desde 2023 no Brasil. Segundo o qual, ao aderir, os homens voltariam ao seu lugar de direito de dominar social e financeiramente as mulheres e serem respeitados por sua masculinidade.
Ademais, a filósofa Judith Butler (2020) explica sobre a crença psicossocial de que algumas pessoas podem ser mortas. Já que são menos dignas de compaixão e luto. Os “corpos que não importam”, são marcados por desigualdades de poder e discursos que garantem isso, este é o caso das mulheres. As quais foram colocadas como objetos de prazer, alvos a serem dominados ou inimigas a serem violentadas e mortas. Por isso, mesmo com provas, fotos, vídeos e relatórios periciais, há quem diga não ver a violência ocorrendo. Ou, que o feminicídio não existe no Brasil.
Psicologicamente, quem violenta, busca o controle, manipulação, crueldade, violência e abuso. Porque a outra pessoa só é vista como objeto de prazer. Principalmente ao se gerar dor de forma sádica. Se normalizam atos de violência perversos. Os quais surgem da inadequação social e incapacidade de responsabilizar-se pelos próprios sentimentos, da inaptidão de lidar com aquilo que é diferente, que gera afeto, frustração ou foge do seu controle.
Cabe à Psicologia, então, entender o contexto social e criar caminhos de acesso à informação, ações sociais e psicoeducação, além das intervenções diretas e individuais. Para isso, é preciso ser livre de preconceitos, para se tratar tanto de mulheres vítimas de violências de gênero, quanto homens que são alvo destes discursos falaciosos.
Pois, na terapia com psicólogo é possível que uma pessoa em situação de violência se fortaleça, busque por canais e redes de apoio para se libertar dessa situação e se torne mais independente e autônoma. Assim como possa lidar com situações que sucedam desses episódios de violência. E que alguém que sente tal agressividade, lide com tal antes que seja consumido pela mesma.
Psicólogo Matheus Wada Santos (CRP 06/168009)
Psicanalista especializado em gênero e sexualidade
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