A morte de Gabriel Ganley, de 22 anos, tem gerado comoção e debates na mídia. Ele se identificava como influenciador digital e atleta de fisiculturismo. E o registro de óbito aponta a morte súbita devido a cardiomiopatia hipertrófica, a qual pode ter uma raiz genética ou ocorrer devido ao abuso de substâncias.
Nas redes sociais, Ganley acumulava mais de 1,6 milhão de seguidores e abertamente compartilhava sua rotina intensa de uso de esteroides anabolizantes (hormônios sintéticos), que têm o objetivo de causar o supercrescimento acelerado de músculos e a perda de gordura.
Já dentre os riscos colaterais conhecidos destes há piora dos quadros de cardiomiopatia hipertrófica, resultando em morte súbita. Além de efeitos psicológicos, como mudanças de comportamento e estado psíquico, agressividade descontrolada, estados ansiosos e depressivos e psicose.
Mesmo com os anabolizantes tendo seu uso proibido na maioria dos casos, a Anvisa registrou alta de 670% na venda ilegal no período de 2019-2024. E, de acordo com a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (2024), um em cada 16 adolescentes já usou estas substâncias.
Dentre os usuários, a maior parte é adepta do fisiculturismo. Uma competição que avalia tamanho e volume dos músculos a depender das poses feitas em um palco para uma plateia. E com muitas categorias envolvendo o uso aberto de substâncias ilegais. Conforme a Faculdade de Medicina da USP, a busca pelo uso de esteroides anabolizantes é movida principalmente pela pressão estética social.
Para a Psicanálise, a “pressão estética social” é um padrão cultural e socialmente aceito, que é reforçado por um modelo de aparência inatingível e enviesado apenas na estética. Segundo este, somente aqueles que estão ali enquadrados são bem vistos e quistos.
Resultando em: senso de pertencimento a uma elite, a ideia de que só esforços relacionados à aparência devem ser recompensados, a aparência exagerada sendo igual à saúde e que aqueles fora do padrão são desvalorizados (preguiçosos, fracos ou relaxados).
Assim, os impactos na saúde mental são diretos, pois essa pressão ataca diretamente o senso de identidade de cada um, incluindo: transtornos de imagem (como a Dismorfia), transtornos alimentares (compulsão, bulimia e anorexia), transtornos ansiosos e depressivos, isolamento, abuso de substâncias, comportamentos de risco, mania e ideações suicidas.
Isso pois, há uma busca de um corpo impossível e inatingível, não importando o custo de saúde ou de tempo de vida. Se escolhe o risco iminente da morte para que a pessoa seja reconhecida como um corpo desejável. Quem “se é” só se torna válido e digno de afeto caso seja visto no palco por outras pessoas, a autoavaliação perde o valor e o Ego (a noção de quem se é) vive fragilizado.
Se cria um “Ideal de EU” (de quem se quer ser) impossível de ser tocado. Essa impossibilidade gera uma angústia e frustração terríveis, pois nunca se poderá ser e ter um corpo que deixe feliz. E, para que a pessoa chegue o mais perto possível disso, se topa todos os riscos.
Tendo isto em mente, o papel do psicólogo é indispensável, pois, é a partir da psicoterapia que o indivíduo pode trabalhar em questões como o abuso de substâncias, autoimagem, autoconfiança, angústias, como lidar com frustrações, criar objetivos reais, fortalecer a noção de si mesmo e diminuir a dependência de validação externa. Ela também permite o tratamento dos distúrbios e transtornos que acompanham estes casos, conforme citados acima.
Psicólogo Matheus Wada Santos (CRP 06/168009)
Psicanalista especializado em gênero e sexualidade
Redes: @psicologo_matheuswada
WhatsApp: (16) 99629 – 6663








