No domingo, dia 25 de outubro de 2026, as eleições presidenciais brasileiras resultaram na reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva do PT (Partido dos Trabalhadores), com 51,79% dos votos. A vitória pelo processo democrático foi reconhecida por figuras nacionais e internacionais, incluindo o próprio Tribunal Superior Eleitoral do Brasil. Porém, alguns eleitores que não tiveram o resultado desejado nas urnas manifestaram suas indignações de maneiras criminosas.
Entre às 23h59 do domingo (25/10/2026) até às 9h30 de quarta-feira (28/10/2026), o Ministério Público do Trabalho (MPT) recebeu 1.353 denúncias de assédio eleitoral referente ao resultado das eleições, segundo dados divulgados pela própria Instituição. Dos quais, 608 no Estado de São Paulo. E 80 delas sendo registradas pelo MPT da 15ª Região (que abrange a região de São Carlos-SP). Esse número corresponde a 37% das 216 denúncias recebidas pela 15ª Regional durante todo o ano de 2026, num espaço de menos de 3 dias.
As denúncias são relacionadas principalmente à ameaça ou demissão de empregados sem justa causa, à recusa de contratação, boicote e retaliação a pequenos empresários e empreendedores autônomos associados a eleitores petistas. Em diversas cidades, incluindo São Carlos-SP, várias listas com nomes de pessoas e empresas que se posicionaram nas eleições apoiando o presidente Lula estão sendo compartilhadas pelo aplicativo de mensagens WhatsApp. Ademais, há também vídeos similares nas redes sociais. Ambos os conteúdos com chamadas de boicote, preconizando negar atendimento em saúde e até mesmo incentivando à violência física e sexual contra essas pessoas.
Estas práticas de violência econômica contra pessoas de posicionamentos políticos diferentes é uma estratégia antiga, que já foi usada em outros momentos históricos. Sendo o mais emblemático em 1933, na Alemanha, para pressionar os judeus, elencando-os como um “inimigo comum”. E, a empreitada, além de dar um alvo as frustrações internas, tem também uma funcionalidade política de quem inicia o movimento.
Já para a Psicologia e Psicanálise, tal processo pode ser analisado em diferentes óticas. O que se percebe inicialmente é que quando há forte polarização ideológica, escolhas de voto passam a exceder o caráter administrativo, porque remetem às identidades individual e coletiva (ao EU (ego) e suas defesas). Assim, a ausência do resultado desejado é interpretada como um ataque direto à identidade e aos valores pessoais, quase como uma rejeição coletiva a quem se é. Principalmente se a pessoa não suporta lidar com frustrações devido a um Ego mais frágil.
Neste sentido, o psicanalista S. Freud já apontava como o ódio político se manifesta em grupos com visões políticas parecidas e desesperançosas sobre o mundo. E não naqueles que têm visões diferentes. Pois, a identificação que o movimento de massa e a desesperança criam dá validação à violência contra tudo aquilo que é entendido como ameaça. Pontos discutidos a partir da ideia do “narcisismo das pequenas diferenças”, em obras como “Psicologia das Massas e Análise do Eu” (1921) e “O Mal-Estar na Cultura” (1930).
Além disso, enfrentar a derrota mobiliza internamente sentimentos reais de luto, irritação, raiva, tristeza, isolamento, ansiedade e apatia. Há inclusive um luto pela perda da ideia de pátria que se constrói a partir das propostas políticas, mesmo que essas não sejam atingíveis. Por isso, ao perder a eleição, o grupo também perde o líder idealizado que salvaria a sociedade de forma sonhada.
Ou seja, se cria no psiquismo uma idealização praticamente apocalíptica de futuro social em que a oposição é o inimigo que trará a ruína à vida de todos. Isso tudo, potencializado pela ação desregrada das redes e das Fake News (notícias falsas), leva a resultados comportamentais, como: insônia, irritabilidade, dores de cabeça, ataques de pânico e o rompimento de laços familiares e sociais
Considerando estes pontos, o papel da psicoterapia é o de criar um espaço que permita a conscientização e elaboração desses sentimentos, aprender a lidar com as frustrações de uma maneira funcional e saudável, além de permitir que os conflitos internos que se refletem nas visões políticas encontrem pela palavra o espaço da mediação simbólica. Para que através do contorno do diálogo, a pessoa seja capaz de lidar com as angústias, sem vilanizar ou odiar aqueles que pensam ou são diferentes.
Psicólogo Matheus Wada Santos (CRP 06/168009)
Psicanalista especializado em gênero e sexualidade
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