É rotineiro que a palavra “narcisista” seja acompanhada de conotações negativas, principalmente se forem observadas na mídia por personagens de novelas, livros, filmes ou séries. Com alguns deles, inclusive, estando no espectro do patológico e chegando a cometer crimes.
Isso porque as representações mais comuns demonstram os traços de busca por um controle manipulador, necessidade de ser o centro das atenções, obsessão pela própria imagem, insegurança, perfeccionismo exacerbado, ausência de empatia e também reações de raiva e agressividade a qualquer crítica. No entanto, na realidade ele não é tão ruim.
Para a psicanálise, o psiquismo de uma pessoa é estruturado em três instâncias: Id, Ego e Superego. Sendo o Ego responsável por como alguém percebe e interpreta o mundo. Além de mediar as tomadas de decisões a partir do que é esperado pelas regras e normas sociais (Superego) frente aos desejos internos (Id) de cada um.
Ou seja, um Ego bem estabelecido se faz necessário para que um indivíduo conviva bem, de forma ética em sociedade e seja saudável. E, para que o Ego (também chamado de “EU”) se construa, uma pessoa precisa do narcisismo.
No mito grego que origina o termo “narcisismo”, o jovem Narciso tinha uma beleza descomunal e rejeitava a todos os seus admiradores, pois não reconhecia a ninguém como sendo belo o suficiente. Então foi amaldiçoado a se apaixonar por si mesmo. Ao ver seu reflexo em um lago, considerou apenas a sua imagem como perfeita e a admirou até definhar e se afogar tentando tocá-la.
Embora os desfechos sejam diferentes, os bebês passam por um processo parecido. Segundo a Psicologia, ao permitir que eles vejam a si no espelho, nomear partes do corpo (“olha a mãozinha”) e tocá-las, se gera um processo de afeto por si próprios e criação de identidade neles. É o início do desenvolvimento da autoestima e autoconfiança; permitindo a identificação daquilo que é externo como não existindo para satisfazê-lo a todo momento.
Ao crescer, caso o Ego não seja plenamente desenvolvido por um narcisismo efetivo e funcional, uma pessoa pode se tornar insegura, ter questões de identidade, de impor limites nas relações e de autoconfiança. Ou pender para o outro extremo: usar de um narcisismo patológico para compensar um Ego frágil, como citado por comportamentos do início do texto.
Assim, pode-se concluir que não é ruim ser narcisista. Pois, ser desta forma é necessário para um bom desenvolvimento psíquico. O que deve e pode ser evitado, inclusive com o acompanhamento de um psicólogo, é que o narcisismo seja descomedido. Portanto a psicoterapia se faz importante para o tratamento de transtornos, questões identitárias e patológicas de saúde mental.
Psicólogo Matheus Wada Santos (CRP 06/168009)
Psicanalista especializado em gênero e sexualidade
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